Crônicas · Lunna Guedes · Outubro Literário

O gesto de recolher os próprios cacos

A maturidade nos entrega uma liberdade tardia e muito bonita: a de não precisar carregar o peso de agradar a todos. Olhar para trás e perceber o tempo em que aceitávamos mesas cheias por pura convenção nos faz valorizar o silêncio de quando a casa finalmente se aquieta. Gostar exige entrega, mas o direito de desgostar é o que nos devolve a calma ao corpo. Não existe nada de errado em fazer careta para o que é amargo demais ou em recusar o calor de peles que não encontram eco na nossa própria essência. A vida é curta demais para engolirmos em longos goles o que não agrada ao paladar.

No jardim, essa honestidade se resolve sem nenhum disfarce. A natureza não usa masks para negociar suas afinidades ou implicâncias. O pé de jurubeba finca suas raízes onde encontra sol e não pede desculpas por sua rusticidade. Certos canteiros rejeitam o excesso de água e os cactos erguem suas pontas de feltro e espinhos justamente para demarcar os limites do seu próprio espaço. Cada semente conhece o seu próprio tempo e o solo exato onde deseja partilhar sabor e aroma. Se até as plantas escolhem o chão que as nutre, por que nós insistiríamos em partilhar a mesa com o que já perdeu a validade?

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

O Faro que Conhece a Noite

Abrindo a última semana do Outubro Literário, Mariana Gouveia responde à mística missiva de Lunna Guedes sobre fogueiras e sentidos. Ilustrada por uma boneca de bruxa fotografada na sala de Lunna, a crônica entrelaça os trieiros de formigas do pai de Mariana com as alquimias em caldeirões que ela aprendeu com sua bá.

Cuiabá, no instante em que a escuridão engole o horizonte…
Bambina mia,

A sua carta pousou por aqui trazendo o eco das fogueiras antigas e o compasso místico de All Souls Night. Ler sobre o seu caminhar desarmado de dogmas, descobrindo as coisas primeiro pelo faro e pelo tato antes que as palavras chegassem para limitar o mundo, me fez fechar os olhos e imitar o seu gesto. Ergui o nariz para o ar morno deste outono que inventamos em outubro e também senti o pulsar do lado de dentro. Há uma sabedoria ancestral — uma herança de deusas e bruxas antigas — em se deixar guiar pelo invisível, sem precisar de bússolas que apontem um Norte rígido e definitivo.

Você fala de ter sido uma criança meio canina, que usava os óculos como escudo para escolher quando ver ou ignorar os excessos da realidade. Por aqui, a infância na fazenda também me deu esse faro apurado para ler o que não é dito. Aprendi com meu pai que a verdadeira magia não está nos altares de pedra; está na cartografia dos animais, no jeito como o vento sussurra a chegada da tempestade e na paciência das formigas que desenham seus trieiros na terra preta. Fomos deixadas livres para acender nossas próprias fogueiras, bambina, e essa liberdade é a nossa maior fortuna. Já minha bá me ensinou a sabedoria das deusas e do inusitado. Das crenças e alquimias feitas em caldeirões antigos.

As lendas e os mitos que o homem inventa não são mentiras; são fogueiras necessárias que acendemos na vidraça da alma para aquecer o silêncio que nos cerca. No meu jardim, o caldeirão se resolve na alquimia das ervas medicinais que cultivo e no rito biológico das folhas que sabem a hora exata de cair. Não precisamos de dogmas para entender o milagre de uma semente que rompe o escuro. Quando a noite esparrama suas sombras e apaga os contornos do quintal, percebo que a nossa escrita é o ritual mais antigo de todos: o de riscar o papel para invocar as nossas origens e saudades.

Chegamos à última semana do nosso labirinto literário. Que as sombras na vidraça nos encontrem assim: com os olhos bem abertos para as luzes e mistérios do agora, mas com o coração guiado pelo faro antigo de quem sabe exatamente onde o tempo deságua e encontra sua paz.

Bacio,
Mariana Gouveia

Crônicas · Outubro Literário

O Tecido Inquebrável dos Homens Livres

Há uma espada forjada no frio do alvorecer que os poetas dizem ser como o gelo e o fogo. No poema de Borges, o metal carrega runas que ninguém pode ignorar nem decifrar de todo, uma arma leal destinada a iluminar a batalha e a ceifar a selva de lanças nas mãos de heróis antigos. Mas o tempo das lâminas de ferro cedeu espaço a um combate muito mais profundo, sutil e urgente. Diante das fragilidades do agora, onde somos constantemente avisados de que vivemos sob a sombra de ameaças latentes, a nossa única e verdadeira espada é a palavra livre. É a memória que se recusa a ser silenciada.

A defesa da democracia é a nossa batalha contemporânea, o verdadeiro lema de homens e mulheres que escolhem não fechar os olhos diante dos retrocessos. Enquanto alguns tratam a liberdade como um filme de ficção na tela grande, ignorando o perigo dos discursos que tentam calar as instituições, por aqui a resistência se faz de forma orgânica e permanente. Não precisamos de ouro rubro ou de reinos conquistados no gume do metal; precisamos da solidez do chão firme, do direito de divergir sem medo e da coragem de manter as janelas do pensamento abertas para a luz do mundo.

Sentada à mesa do quintal, enquanto o café exala seu aroma casa afora, percebo que os ritos da terra também ensinam sobre cidadania. Eles nos lembram de que as conquistas democráticas, assim como as sementes plantadas na terra, exigem um cultivo diário, entrega e uma vigilância mansa que não se dobra aos autoritarismos do vento sul. A liberdade não é um conto de fadas com prazo de validade; é um pacto de permanência.

Sabendo que herdar a sorte dos que vieram antes de nós é também carregar a responsabilidade de manter o horizonte limpo. Que a nossa escrita continue sendo essa linha inquebrável, um rastro que insiste em não se apagar diante das engrenagens barulhentas do poder. Aceito o amanhecer, acolho o mistério e sigo tecendo, palavra por palavra, a tessitura invisível da democracia. Porque contra a barbárie que tenta embaçar as paisagens, o galho ideal onde a justiça repousa sempre será a soberania de um povo que aprendeu o valor de caminhar de mãos dadas.

* hoje votei pela democracia, pela dignidade e votei principalmente contra a extrema direita e contra o facismo.

Mariana Gouveia

Crônicas · Outubro Literário

As Raízes que Conhecem o Chão

Cruzar oceanos inteiros para descobrir, anos mais tarde, o peso exato de sua própria origem deve ser compensador. Saber que viveu a água e depois a terra traz em si o misticismo das lendas. É uma sina bonita a dos andarilhos que herdam o nomadismo dos antigos aventureiros, desafiando os ventos a bordo de aeronaves e lidando com as correntes do mundo até que o corpo canse de flutuar. As cidades marítimas parecem nos despejar no movimento das águas para ver se sabemos nadar, mas é a solidez do chão firme que nos devolve o prumo e a calmaria quando as tempestades apertam.

Eu sempre achava que iria fazer o contrário, porque quando lia ou ouvia alguém falar de mar era como se precisasse pisar na areia e sentir as ondas batendo em meus pés. Embora minha pele tenha sido forjada no calor do cerrado, onde os horizontes se estendem em linhas largas de poeira e o único oceano visível é a imensidão azul do céu que abraça os topos dos ipês, queria sentir a maresia e a brisa marítima. Talvez pelo momento poético dos poemas, talvez pelo inusitado que eu só descobriria aos sessenta anos.

Saber-se de terra, mesmo conhecendo o barulho das ondas tão de perto, é apaixonante. Somos, afinal de contas, criaturas moldadas pelo barro, feitas da paciência de quem sabe o dia exato de plantar e o rito biológico de esperar a colheita. Embora o mar me encante, fui moldada pela terra das florestas e pelas correntezas mansas dos rios. Mas, ao evocar a mãe natureza, não esqueço que o oceano traz uma completude ao universo.

Sei que, mesmo vivendo tão longe do mar, as marés afetam as coisas por aqui, assim como a lua em suas fases distintas. Quando a corrente do rio afasta-se da margem, é como se fizesse reverência ao oceano em algum ponto do mundo. Espreito a precisão silenciosa das folhas que sabem quando cair e dos pássaros que encontram o galho ideal para interromper suas migrações ancestrais e encontrar a árvore certa para abrigo. Sirvo o café, sinto a quietude do meu lugar colar na pele e aceito o desfecho de mais uma semana. No idioma misterioso que tecemos linha por linha, a escrita é o nosso cais seguro, o território firme onde o passado e o presente deságuam para nos lembrar de que o mundo inteiro sempre coube no espaço sagrado do nosso quintal.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Qualquer coisa de silêncio para dentro

Cuiabá, na hora em que o calor cede espaço ao dia…
Pai,

Há datas que, mesmo não olhando o calendário, a gente se aconchega dentro delas como se fossem uma marca ou uma tatuagem na pele. É engraçado como lembramos mais do tempo da falta do que da presença. Devo te contar que nunca me esqueci dos dias grandes que o senhor guardava, nem dos rituais que nos ensinou. Talvez, dos seus filhos, eu ainda seja a única que segue os ritos em sua memória.

A sua ausência é esse compasso de espera que nunca termina, mas a sua presença teima em se fazer notar toda vez que a brisa de outubro escancara as cortinas da janela e traz os aromas de tantos ontens dentro de nossa história. Lembro-me com precisão do senhor decifrando o idioma invisível do ar no cerrado. O senhor apontava para o céu aberto e me ensinava sobre o voo coreografado dos pássaros, o tempo certo e paciente de cada semente e os segredos que as nuvens carregavam antes de derramarem a chuva na terra batida. O vento, para o senhor, nunca foi apenas o ar que passava; era o mensageiro que indicava onde os bichos do jardim encontravam abrigo, cura e sorte. Aprendi a ler o mundo imitando o seu olhar atento. A seguir a cartografia dos animais e saber, pelo jeito deles, o dia de chuva, de sol, de plantar, de colher.

Essa caligrafia natural e rústica é a que continuo perseguindo quando me sento ao entardecer com o café quentinho na horta simples. Olho para a paciência dos trieiros das formigas e percebo que os seus ensinamentos continuam vivos no avesso de cada gesto meu. Escrever para o senhor é aceitar que algumas memórias são imensas demais para baús trancados; elas pertencem à própria atmosfera deste quintal, sobrevivendo no perfume das ervas frescas e no balanço das ramagens.

Eu conto para as pessoas sobre os três anos de saudades, que são também três anos de permanência. O senhor não foi embora por completo; deixou as chaves desse cais seguro nas minhas mãos para que eu continuasse tecendo essas redes de lembranças. Abro os álbuns de fotos sobre a mesa e um sorriso se abre aqui. Vejo-me mais jovem e minhas irmãs ao seu redor. As fotografias trazem os momentos vividos, pai… E que sorte eu tive de, nesta vida, ter vindo como sua filha. Sorvo o último gole do meu café, sinto a quietude que cola na pele e deixo que a brisa da noite leve essa carta até o senhor, certa de que a poesia que faz a vida suspirar sempre encontra o caminho de volta para casa.

Com a bênção de sempre,
Mariana.

Crônicas · Literatura · Outubro Literário

O Cultivo Lento dos Nossos Afetos

Orgulho e Preconceito chegou até mim pelas mãos de Lunna. Claro que já o havia visto em listas e lembro-me também de uma novela, que não acompanhei, mas vi alguns dos capítulos, fã que sou de novelas de época. Quando abrimos um clássico é justamente para reencontrar esse compasso antigo — onde os olhares carregavam silêncios, as palavras esperavam o momento certo para surgir e o afeto não era mercadoria com prazo de validade curto, para ser consumido no “ontem”. Como nos ensina Jane Austen, a verdadeira experiência das relações não está no arrebatamento do primeiro olhar, mas no caminhar paciente que nos revela do que somos feitos, convidando-nos a acolher as diferenças que dão forma e singularidade ao outro.

Essa sabedoria dos livros encontra eco perfeito no meu canteiro, onde a natureza cumpre seu rito. Olho para a calmaria da minha horta simples e vejo que o cultivo compartilha da mesma verdade que orienta as histórias de Austen: uma planta medicinal não brota para curar da noite para o dia; as sementes enterradas no escuro exigem tempo, entrega e cuidado antes de revelarem os primeiros botões. Tentar acelerar esse ciclo é querer saltar páginas de um romance antes que o orgulho e o preconceito deem lugar à doação — e, ao fazer isso, rompemos a própria beleza do caminho.

Gosto muito da imagem das receitas que atravessam gerações: cuidar dos afetos é como ralar o queijo, misturar o polvilho, os ovos, a manteiga e esperar que o pão de queijo saia quentinho do forno, enquanto o café exala seu aroma casa afora, misturando vivências, respeitando o tempo de descanso e de assar, deixando que as histórias assentem e ganhem sabor. O amor, assim como a poesia que faz a vida suspirar, não cabe na urgência das relações instantâneas das telas. Ele se ancora na solidez de quem escolhe sentar-se à mesa rústica ao entardecer e esperar, sem cobranças, que o dia se recolha no seu próprio ritmo.

Sirvo o café, recebo o calor da tarde e deixo que as palavras de Mr. Darcy ressoem como um lembrete suave: sentimentos profundos são feitos de permanência. No calendário secreto das nossas vidas, a pressa de ser feliz cede espaço à sabedoria de simplesmente pertencer ao instante. Fecho mais um ciclo do dia com a certeza de que — seja folheando os livros da estante ou cuidando do quintal — o verdadeiro porto seguro está em dar a cada coisa o tempo exato que ela pede para, enfim, acontecer.

Mariana Gouveia

Crônicas · Lunna Guedes · Outubro Literário

As Molduras Invisíveis da Noite

As horas avançam e a noite finalmente derrama seu manto por cima do muro. Enquanto nas grandes cidades as janelas acesas funcionam como telas de Hopper, emoldurando o isolamento e a solidão, no meu quintal o roteiro se desenha de outra forma. Minha janela não dá para fachadas vizinhas ou quartos iluminados onde vidas dependem do tic-tac rigoroso dos remédios. A minha moldura dá para a calmaria do pé de ipê, que vez ou outra se enfurece com um vento vindo do sul, ou para um céu de lua que adentra o quadrante do meu muro, ultrapassando o beiral da casa vizinha, onde a existência cumpre um rito muito mais manso e silencioso.

Gosto de observar o escuro do quintal quando o barulho da rua de cima começa a silenciar. Não há cortinas que se fecham de maneira grosseira para me expulsar do cenário; há apenas o balé discreto das folhas do pé de jurubeba e o chilreio das aves noturnas, que embalam seus voos mesmo na ausência da luz e continuam a vigiar o tempo.

Não corremos contra o relógio para reter uma juventude inventada; aceitamos cada uma das nossas fases com a sabedoria de quem sabe que o outono e o inverno também trazem suas próprias belezas e recolhimentos. O passar dos anos nem sempre traz sabedoria; por muitas vezes, são apenas reflexos do que vivemos. E quando um passeio pelo bairro nos mostra personagens que lembram filmes ou histórias de livros, isso indica apenas que a poesia e o lúdico vivem dentro de nós.

Sirvo o último gole de chá, sinto o aconchego de Yoshi deitado no tapete e dou por encerrado mais um quadrante do dia. Que as letras que sobem na calada da noite continuem a tecer pontes poéticas entre os nossos fusos e as nossas tantas geografias. Se o mundo lá fora se fecha em roteiros cinzentos e janelas que se apagam com pressa, aqui dentro o avesso dos dias permanece nítido, aquecido pelo café e pela simplicidade de quem aprendeu a encontrar o infinito no silêncio do próprio quintal.

Mariana Gouveia

Crônicas · Lunna Guedes · Outubro Literário

O passado e o futuro no rito dos fusos

O meu lugar tem um tempo diferenciado. O relógio da sala marca uma hora a menos que o horário de Brasília. Isso causa estranheza em algumas pessoas e gera brincadeiras com outras, principalmente com a Lunna. Sempre estou no passado dela e ela no meu futuro. Na primavera, o sol nasce bem mais cedo e vai embora bem mais tarde. Então, quando é noite no quintal dela, no meu ainda acontece a tarde, com seus raios solares nas paredes da vizinha. Há geografias que brigam com os ponteiros do relógio e se aborrecem com o esticar das tardes. Por aqui, a luz nunca pede licença; ela é a própria dona da casa.

Fiquei imaginando um poeta apaixonado pelo outono nomeando a tarde. Essa imagem fez um riso brotar aqui… Isso me faz pensar nas cores das cápsulas que envolvem as sementes do ipê em sua tonalidade de outono. Não importa a estação. Elas acabam por se revezar em tons ocres em algum canto do quintal, pelo menos em algum momento do dia, enquanto o cambacica dorme em seu rito de ave. Elas sabem que a sobrevivência exige uma paciência rústica, uma capacidade de reter o próprio silêncio enquanto o céu do cerrado decide, no seu próprio tempo, quando derramar as suas sombras.

Quem se apaixona pela meia-luz do outono muitas vezes esquece que é no excesso de sol que as sementes invisíveis encontram o calor necessário para romper a terra, indiferentes aos calendários que os homens inventam para o próprio uso.

Quando a noite finalmente decide chegar — e por aqui ela sempre cobra o seu preço em calmaria —, o ruído das engrenagens urbanas começa a silenciar. Aceito a leveza de que, não importa o tamanho da luz lá fora, a poesia que faz a vida suspirar sempre encontra o seu porto no avesso dos dias.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Outubro Literário

O Gesto de Erguer a Tampa

Cuiabá, na hora em que o calor cede espaço à noite…
Bambina mia,

A sua missiva atravessou o breu morno de outubro e me fez tatear, no escuro, as minhas próprias paredes. Ler sobre o abalo sísmico que aquela pergunta provocou em você me fez olhar para os canteiros do quintal em silêncio. Há um conforto imenso na neblina que cobre o que fomos; afinal, fingir que certas dores pertenceram à biografia de um estranho é a nossa forma mais antiga e humana de sobrevivência. O vazio sensorial é um barco macio, mas a escrita teima em nos cobrar o chão. Aqui quase não tem neblina — ou smog — como em Londres. Poucas vezes vi um vasto nevoeiro tomar conta do meu lugar. Eu fiquei fascinada, mas tremia de frio. Não vi além do piso amadeirado da varanda.

Você fala de perder-se de si mesma pelas calçadas urbanas, guardando apenas o cheiro da flor de laranjeira ou o tato do papel para guiar o retorno. Por aqui, a pele também guarda caminhos que a mente às vezes hesita em acessar. O corpo sabe do chão de terra batida muito antes de a memória conseguir organizar as datas. O que chamamos de esquecimento é apenas o tempo descansando debaixo de uma fina camada de poeira. Às vezes, não é não lembrar… É não esquecer… É confuso, eu sei… Lembrei-me de Caetano agora.

Abrir a Caixa de Pandora ou erguer a tampa de um baú antigo exige um fôlego que nem sempre temos ao amanhecer. Mas você tem toda razão, bambina: se o baú está ali, portão adentro, é porque em algum quadrante do tempo o gesto precisa acontecer. A literatura não se faz com linhas retas e intocadas; ela nasce justamente do rastro que deixamos quando decidimos enfiar as mãos na terra úmida para arrancar o que sufoca ou para replantar o que restou.

Se a sua alma derrapa diante da consciência de lembrar, a minha escrita se senta ao seu lado no banco desse “não-lugar”. Não tenha pressa em dissipar a neblina que é persistente aí. Algumas coisas escapam para que a gente tenha o prazer de reinventá-las em prosa, versos ou poesias. As minhas mãos continuam firmes, exalando o aroma das ervas simples e oferecendo pouso para quando precisar.

Bacio,

Mariana Gouveia

Ensaios Intimistas · Outubro Literário

as migrações ancestrais de pássaros

Acho que foi em uma manhã — quase solar,
onde o vento morno escancarava a janela por detrás da cortina.

Eu vi as asas em sincronia, como se a alquimia do amanhecer
desbotasse as rosas do jardim, que nem começaram a florir,
num tempo vago onde o despertar evoca as lembranças.

O pássaro de outrora, que voava em pleno cerrado
e minha mãe dizia: vão ao encontro do lugar onde confiam
para criar seus ninhos…

Abro os olhos e acordo, devagar,
de volta a este vago e compartilhado ontem.
Fiquei tentando entender a migração dos que vieram antes de mim,
e se buscavam, nas terras desse quadrante, entre os ipês,
um lugar seguro para criar o que hoje chamam de lar.

Desperto sob o voo e herdo a velha sorte:
o rastro antigo de quem também cruzou desertos.
Mas há asas que cansam de desenhar o norte,
e que pousam, serenas, em meus dedos abertos.

Interrompem, por fim, a migração ancestral.
Não há mais o peso do esquecimento ou da busca:
descobriram que em minhas mãos habita o galho ideal,
a árvore certa onde o tempo deságua e repousa.

Mariana Gouveia